Piadalouca
Tem poeta pra tudo nesse mundão do demodeus. Tem aqueles que não valem o que comem. Tem uns e outros que o que fazem já foi feito antes e bem melhor. Tem também os idiotas da subjetividade que acham que escrever em dialeto pra meia dúzia de vagabundo s não é chafurdar na merda.
Mas o que mais tem é poeta onanista ortodoxo, sonhando com taças peludas em céus de veludo, sob uma baita dor de corno. Com esses aí de cima, o bom mesmo é manter distância segura, um pé à frente e outro mais ainda. Mas nem tudo é cópia e mistificação, existem os poetas-inventores, aqueles que abrem os próprios caminhos e não seguem nem suas próprias pegadas.
O Sérgio Viralobos é um desses, com uma vantagem a mais: além de poeta-inventor, é um profeta que, aleluia!, vive de mala e cuia na casa do senhor! Pra você que está chegando agora, cuidado. É que a linguagem desse cara beira sempre o precipício e você vai ficar realmente abismado ao saber como a simplicidade pode ir fundo e subverter a superfície de todas as coisas deste e do outro mundo. Bofetadas no gosto público? Pode até ser, mas antes mesmo de você se sentir completamente nocauteado, vai ouvir o Sérgio Viralobos rir, rir como Heinrich Heine ria, porque ele sabe que a alegria do circo é ver o palhaço pegar fogo e incendiar o público todo.
E, além de não lhe dar a outra face, é bem capaz de uma última rimada, linda de se ver, bem no meio da sua fuça.
A Piada Louca de Sérgio Viralobos
Por Luiz Claudio Oliveira – 10/06/2014
Escrever palavras no ritmo
E
ou rimadas é um vício
De linguagem bárbara.
É uma escavação de íntimo
Em busca da gema do suplício
Para vendê-la a gente avara
De emoções ou o que o valha.
Estes são os versos iniciais do poema “Morte Morrida Diária”, o primeiro do livro Piada Louca (Editora Nossa Cultura, 2014, 237 págs.), de Sérgio Viralobos. É o melhor livro de poesias deste ano de 2015.
O primeiro poema é uma espécie de carta de apresentação do poeta e termina assim: “Morrerei de aborto da obra-prima”. Os versos deste poeta cantante podem tanto calar quanto animar uma mesa de bar. Eles têm uma das melhores qualidades da poesia, a de surpreender, de chacoalhar com o banal, de instalar o inesperado e fazer o leitor pensar. Além de tudo, é divertida, com uma espécie de humor mal-humorado.
Na apresentação do livro, o também poeta Thadeu Wojciechowski mata a charada poética: “… a linguagem desse cara beira sempre o precipício e você vai ficar realmente abismado ao saber como a simplicidade pode ir fundo e subverter a superfície de todas as coisas deste e do outro mundo”.
Um dos principais defeitos da música popular atual, e isso vem se agravando no Brasil e em Curitiba, em particular, é a baixa qualidade das letras. Não é culpa de Viralobos que também é letrista com músicas espalhadas em dez álbuns e que continua produzindo. Muitas dessas letras foram gravadas pelo Beijo AA Força e pelo Maxixe Machine, boa parte delas em parceria com Marcos Prado, que lançou uma sombra pós-morte sobre o parceiro não menos genial.
Agora, Sérgio ressurge sem parceiros nesse livro de dar inveja a qualquer poeta. São 111 poemas colhidos em todas as fases. No livro também estão incluídas peças feitas para virarem música. Não é fácil para uma letra se manter digna ao ser exposta como poesia nua, quando lhe é retirada a música. Não é o que acontece no caso de Viralobos.
Abri o livro ao acaso, à cata de provas, e dei de cara com este “poeletra”, “Dois Tipos de Mulher Que Eu Gosto”:
Não sei o que mais me apetece
Se a menina que me escreve
Ou a mulher fatal sem remorsos
Pode ser linda desportista nata
Ou criadora de casos
Corredora de cem metros rasos
Ou masoquista acrobata
Insone e ensolarada starlet
Muito tutano para pouca carne
Naturalmente terá mais charme
Do que a lei permite.
O livro, como uma coletânea, passeia com a poesia “viralobesca” por vários caminhos. Vai do poeta “gauche”, deslocado, ao dono da farra; do escracho ao paratexto bem cuidado; do filosófico ao surpreendente óbvio explosivo. Poesia para ser cantada, estudada, pensada e repensada. Serve para tímidos, introspectivos, ou para ser declamada em altos brados. Tudo embalado e organizado num belo trabalho de edição.
Como diz o próprio Sérgio Viralobos no último dos poemas de Piada Louca, “Testamento de um Recém-nascido”:
Nem mais me lembro quando
Comecei a brincar com o texto
Só sei que sempre sonhei
Que ele tivesse jeito
De imagem, música, cinema
Todos os ponteiros ajustados
E levantando a bola pra poesia
Brindar à vida no bar dos bardos.
